quinta-feira, 19 de junho de 2008

Uma vida



Sob o sol abrasador das 3 da tarde, circulava calmamente por entre as vias, entre pinheiros e sítios perdidos.
Subitamente, numa estrada algo movimentada, eis que me aparece.
Estático(a) e imóvel, qual criança despojada deste mundo, das alturas insondáveis, com asas inúteis.
Um pássaro...uma ave que me devia de observar das alturas, que Ícaro ambicionou, numa estrada. Não sei de quantos veículos se escapou, mas não pude ficar impune e insensível à desolação daquela criatura.
Parei e, devagar me aproximei.
Ela se manteve-se. Agarrei-a e tentei perceber de onde tinha vindo. Olhei em redor.
As árvores mais próximas ainda estavam a uns bons 50 metros. Como ele(a) foi lá parar...nem ideia.
Felizmente tinha uma garrafa de água e dei-lhe para matar a sofreguidão patente pelo "arfar" e os olhos, impávidos na direcção do meu coração.
Foram os 500 metros mais longos da minha vida...
Por todas as minhas forças e esforços, queria que ele(a) sobrevivesse a todos os custos e mais alguns. Que não abandonasse a sua sabática vida, dentro da minha mão direita, fechada mas folgada.
Eis então, a Reserva Natural da Ria Formosa. Uma urgência num punho cerrado.
A Srª da recepção acalmou-me.
Aparentemente, é algo que tem acontecido muito...Época de nascimentos e crias que tombam dos ninhos.
Com as devidas atenções, ficou entregue. Nunca soube que espécie de ave era.
O importante foi ela(e) ter sido salvo(a).
Acreditando no provérbio judeu:

Whoever saves one life, saves the world entire.

Assim espero.

sábado, 7 de junho de 2008

XX vs XS - o Casamento

Antes de mais, quero referir que estás "crónicas" não têm nada a ver com acontecimentos recentes.
Foram escritas à bastante tempo (data do ficheiro - 26/6/04).
Isto apenas para não ferir susceptibilidades ou criar mal entendidos. Obrigado.

BOHEMIAN LIKE ME!?

Para além disso, a vida decorria normalmente e ao seu próprio passo. A mesma rotina, a mesma boémia aos fins-de semana. Todos os dias, considerava que tinha, pelo menos, em breve que findar com tudo aquilo.

As pessoas crescem, os amigos vão casando e quando menos reparamos, somos o último solteirão e já fazem apostas relativas a que idade vais, finalmente, casar e “deixar de dar dores de cabeça aos teus pais”. Ainda me é difícil imaginar esse conceito e tenho boas razões para isso:

A Igreja (o que para um ateu e agnóstico como eu se torna um conceito tão intrincado como um universo deca-dimensional no momento do Big Bang ou outras teorias da Física Quântica moderna).

As mães (e pais) chorosos (totalmente dispensável, pois as fotografias vêm a seguir e vai-lhes dar cabo de horas de preparação).

A leitura de uns sermões (ou seja, coisas fixes e totalmente poéticas, que, quem sabe poderíamos ter aproveitado em inúmeras ocasiões. Outras não convém dizer a feministas ferrenhas…)

O “Sim” (que muitas das vezes, a meio da vida conjugal preferíamos ter tido hipóteses múltiplas)

As Fotografias (geralmente pessoas suadas não ficam melhor, nem com múltiplas aplicações de base e outros cosméticos. Também se pode dizer que é o maior desfile de sorrisos amarelos do mundo, pelo menos da parte dos noivos).

As Criancinhas (a correr desenfreadamente por todo o lado sem o controlo dos progenitores, ou, mais recentemente, sentadas a jogar Game Boy, totalmente absortas e quietas. Já que não se pode trazer a TV., arranja-se um substituto).

O “Copo-de-Água” (expressão que ainda me fascina, pois parece que ninguém sabe como surgiu. Resume-se, a ser um festim como nos livros do Astérix, só que temos que gramar com o bardo)

A Banda (bem… vocês sabem!!!)

O Bolo (o ponto alto na vida de um pasteleiro. Mas porque tão altos?)

O Lançamento do Bouquet (versão moderna e mais light de atirar os cristãos ás feras.)

Mingle… (ou seja, a convivência pela parte dos noivos com os convidados. Também conhecido como Intervalo…Intervalo dos sogros.)

Lua-de-mel (eis outra palavra que também nunca irei descobrir de onde surgiu…Resume-se à “suposta” noite em que os recém casados dormem pela primeira vez juntos no mesmo leito, pelo menos com o conhecimento de ambas as partes paternais…e de mais 100 pessoas).

Enfim, não é que queira destruir o ritual do casamento. Para mim, não passa mesmo disso, um ritual. Algo de simbólico, corajoso e com direito a descontos no I.R.S., mais nada. Depois torna-se como a descoberta do caminho marítimo para a Índia:

-“ Foi difícil a principio, até alguém conseguir passar, mas seguidamente toda a gente o fez. Temos as rotas e as coordenadas, é só seguir…” Melhor do que isto só o mapa da Michelan…

Admita-se, o casamento é no fundo algo corajoso. A aceitação de outra pessoa como “a pessoa” é um mérito. Chegaram ao fim da sua busca ou apenas se conformaram, dependendo dos casos.

Quando se é solteiro, a masturbação é o desporto favorito nos dias de semana. A “nossa mulher” ou é uma cerveja, um animal de estimação ou um televisão, pois são as únicas coisas que ansiamos por chegar a casa e que geralmente esperam por nós até tarde…. Em casos doentios é: um peluche, uma quinta-feira à noite ou uma boneca insuflável (por vezes todos ao mesmo tempo). Todos os dias são uma página em aberto, ou quase, em que fazemos o que nos der na vinheta. Claro que há uma tendência para a rotina, mas é impressionante as pessoas que gostam da sua.

A rotina tendenciosa para o dormir no sofá, como os meus pais, em que já quase não conseguem ter uma noite de sono decente, sem ser, precisamente, no sofá. Aliás, o sofá, acabou tornando-se quase como aquele monólito do “2001-Odisseia no Espaço”, um objecto estático e preto no meio de uma sala, em que duas criaturas quase amorfas se desfalecem no seu encanto e acordam de vez em quando, geralmente quando os créditos dos filmes aparecem.

A princípio era misterioso e interessante, mas agora já compartilham rugas…Que “poéticas” são as noites de fim-de-semana, eles os dois ali em frente a um debitador de imagens a 25 fotogramas por segundo, tentando ver um programa que geralmente acabam não vendo, lutando contra o cansaço de uma semana de trabalho, tentando convencer o outro a ir para a cama…para apenas voltarem a adormecer. Ah… o casamento!

Eu sei que insisto muito nesta temática, mas é um dos meus passatempos favoritos. Analisar uma relação é quase como ver uma novela. Não sou muito fã de novelas, mas fascinam-me as pessoas. Sim, as pessoas. São como pequenos livros. Têm uma capa, uma contra-capa e uma história. Por vezes só a capa já é fascinante. Agora, como conseguir ler a história? Por vezes, só se consegue pelo amor, outras, por uma confiança e amizades desmedidas. Ainda assim, por vezes não chegamos ao fim, mas vermos a contra-capa já é recompensador.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

XY vs XX

Estive a rever coisas antigas, e, encontrei esta "pérola" no meio deles....estou a considerar fazer uma crónica?

Antes de começarem a ler este texto, apenas um pequeno aparte do Exm.º Sr. Dr. e Imesurável (vénia) escritor que foi Jorge Luis Borges:

Cometi o pior dos pecados que um homem pode cometer. Não fui feliz.

Bem haja, camarada.

HOMENS

Omes, Homens, homens, dependem… !!! Bem, somos muitos e à escolha.

“- É à vontade do freguês… Ólhó lençoli, ´lhó cubertori só 5 €´s…”

Essa tal espécie do “Urinus Erectus” é vasta, mas com características quase comuns entre todos. Regidos por impulsos primários, geralmente de associação libidinosa, são, até à puberdade, criaturas herbívoras, sempre atrás de florzinhas, mas assim que esta fase é ultrapassada, convertem-se, geralmente, em seres de hábitos carnívoros, tornando-se uns, caçadores astutos, ao passo que outros se tornam apenas recolectores.

Não posso falar da generalidade da espécie, mas em termos mais sumários, resume-se a SEXO.

“- Olhe lá quisso é memo uma grande novidadi…atão não éi!”

Eu sei que não o é minha senhora, mas apenas estou a tentar escrever um pequeno texto.

“-Ah, vá… ande lá com isso…”

Pronto, pronto….

Em termos gerais, esta espécie, quando encontra um conjugue matrimonial, começa a cair nos seus próprios “buracos”.
Por outras palavras, de meninos bem comportadinhos e asseados, que tudo tentam fazer para agradar os pais do conjugue na fase do namoro, até aos famosos “slobs”, (criaturas desleixadas em blusa de alças, com uma cerveja numa mão, o controlo remoto na outra) vai um passo muitíssimo pequeno. As discussões geralmente supérfluas. Ela quer ver a novela ele a bola. O que certas pessoas fazem por uma queca, acaba-se pagando caro.

Depois quando menos se dá por isso estamos casados, com filhos e contas por pagar. Aí a coisa se complica e justificamos o nosso acordar repentino da vida, com, as também famosas, crises de meia-idade.
Apercebemos-nos que o melhor das nossas vidas já passou. Já não somos tão jovens para certas posições de Kama-Sutra, queremos fazer coisas que já não nos são possíveis, galamos rapazes e raparigas mais novos com um pequeno suspiro na alma…

Como é que pudemos chegar aqui, a este estado? Bem, … desleixamos-nos. “Não adiem nada” esse é o meu conselho. Se se pode fazer, façam-no. Espontâneo, admirável, poético, inesquecível, inigualável, único…

O arrependimento vem com a idade, sob a forma de sensatez. Como diz Pessoa “ Não o penses, SÊ.”


Amanhã...o Casamento.